6º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Tens o poder de curar-me! – 14 de Fevereiro
Neste 6º Domingo do Tempo Comum, o Evangelho narra a cura de um leproso que se aproxima de Jesus confiando imensamente em seu poder. Jesus, considerando a vida humana mais importante que o conceito formulado pela sociedade da época, acolhe o homem, livra-o da lepra e possibilita sua inclusão social.
Testemunhemos a compaixão do Senhor que se manifesta na cura de um leproso e na sua reintegração na comunidade e também celebremos a Páscoa de Jesus Cristo que se manifesta na vida das pessoas e dos grupos que testemunham a compaixão de Deus com os doentes e sofredores.
Hoje a Igreja nos apresenta duas possibilidades de primeira leitura: uma do livro do Levítico e outra do segundo livro dos Reis. As duas tratam da mesma temática: a situação terrível daqueles que eram acometidos pela lepra.
O livro do Levítico (Lv 13,1-2.44-46) reserva dois capítulos (Lv 13–14) para tratar da “lepra”, que nem sempre era a nossa conhecida hanseníase, mas incluía qualquer doença da pele. Hoje a hanseníase é tratável e curável. Nos tempos bíblicos a lepra era considerada punição divina por algum pecado.
A pessoa suspeita de ter contraído a “lepra” era submetida e rigorosos exames feitos pelos sacerdotes. Uma vez “confirmada” a doença, a pessoa era segregada do convívio familiar e da comunidade. Se tivesse que entrar ou passar por um núcleo habitacional, devia avisar por meio de uma sineta ou gritar “Impuro! Impuro!” No caso de a doença da pele ter sido curada, o paciente devia reapresentar-se aos sacerdotes, para ser novamente examinado. Comprovada a cura, o paciente devia oferecer sacrifícios rituais que nem sempre tinha condições de fazê-lo. Só então podia ser readmitido na família e na comunidade.
Nossos preconceitos, também hoje, excluem pessoas portadoras de hanseníase (lepra), de HIV ou que se definem por opções sexuais alternativas. Também não nos sentimos bem no meio dos pobres e os excluímos de nosso convívio. Podemos aprender do exemplo de Jesus (Evangelho) e de muitas pessoas que se dedicam a eles e aos enfermos, e que acolhem todas as pessoas em qualquer circunstância.
Nesse estado, numa situação de profundo isolamento social, o que resta ao homem senão recorrer a Deus, nosso refúgio?
É o que vemos no Salmo 31, cantado como resposta à primeira leitura na liturgia de hoje. O refrão diz: “Sois, Senhor, para mim, alegria e refúgio”. Nos sofrimentos mais atrozes da vida, só no Senhor podemos reencontrar a alegria e só n’Ele podemos nos refugiar, certos de que Ele sempre nos acolhe, consola e fortalece.
A linda exortação que ouvimos na Segunda Leitura (1Cor 10,31-11,1) conclui a resposta de Paulo às perguntas que os cristãos de Corinto lhe faziam: pode-se ou não participar de banquetes religiosos pagãos, que eram também festas civis (1Cor 8)? É permitido comer carnes de animais sacrificados aos ídolos e vendidas no mercado (1Cor 10,23-30)?
Paulo estabelece dois princípios: como os ídolos não existem, o cristão é livre de comer ou não tal carne; mas nunca deve escandalizar um cristão que pensa diferente, ou têm “consciência fraca”. E estabelece um princípio geral: “Quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus”. Deus não será glorificado, se, com minha liberdade, escandalizo meu irmão. Por fim, Paulo se apresenta como exemplo: em tudo o que faz procura não o próprio bem, mas o dos outros, para que todos sejam salvos.
O Evangelho (Mc 1,40-45) nos apresenta o contato de Jesus com um leproso. Um leproso se aproxima de Jesus suplicando-lhe a cura. O verbo que o lecionário traduz como “pedir” e que indica a atitude do leproso em relação a Jesus pode significar muitas coisas, como consolar, por exemplo.
O leproso “chama Jesus para junto dele”, invoca Jesus como sendo o seu “paráclito”.
Que bela imagem temos diante dos nossos olhos: o leproso vê em Jesus o seu “Paráclito”, aquele que pode estar junto dele para curá-lo da sua “morte”. A palavra do leproso, que se prostra de joelhos diante de Jesus, é uma verdadeira profissão de fé: “Se queres tens o poder de curar-me”.
O interior de Jesus é completamente mexido e remexido ao ver o homem leproso. Claro, pois Ele é o “Senhor da vida” e não quer ver na morte os “filhos amados do Pai”.
Basta uma palavra, a palavra poderosa de Jesus, para que esse homem fique curado: “Eu quero, sê puro”. Jesus ordena e o homem fica curado da lepra.
A atitude de Jesus, contudo, está em pleno acordo com a Lei, porque Jesus ordena que o leproso vá ao sacerdote, para que este, conforme ordena a Lei, possa ratificar a cura e receber do miraculado o que Moisés previu na Lei. Mas uma outra atitude de Jesus chama a atenção do ouvinte: “Não contes nada disso a ninguém!”
Trata-se do “segredo messiânico”, forte característica teológica do Evangelho de Marcos. Jesus não quer que o compreendam como um mero milagreiro, pois os seus milagres têm a função de confirmar a sua pregação e de anunciar que Ele é o Messias esperado, eles não são um fim em si mesmos.
O Evangelho termina mostrando que o miraculado não obedece Jesus e começa a divulgar a todos o que Deus fez em seu favor, de forma que Jesus já não podia entrar mais discretamente em nenhuma cidade.
Todos nós somos como esse leproso. Jesus já veio e já morreu para nos curar da nossa lepra que é o pecado. O pecado é como uma lepra que destrói a nossa alma, que nos dilacera, que nos mutila, que nos divide… Jesus veio e se apresentou a nós como aquele que veio para nos curar dessa lepra e para nos devolver a saúde. Precisamos, todavia, imitar o exemplo desse leproso. Precisamos entrar num processo penitencial e a quaresma que já se aproxima é a nossa grande chance.
Podemos concluir nossa reflexão lançando um breve olhar para a segunda leitura. São Paulo define em poucas palavras a finalidade doxológica da nossa existência: “fazei tudo para a glória de Deus”. A Eucaristia é uma grande “glorificação” do Pai.
Jesus não apenas entende a dor e partilha o sofrimento. A compaixão gera vontade em Jesus (“Sim! Eu quero!) e propicia cura (“Você está curado”). Há nessa cena, portanto, uma manifestação da humanidade e da divindade de Jesus. Ele sente a dor como homem e cura como Deus.
Deixemos que a nossa vida também seja doxológica, que as nossas palavras e, sobretudo, o nosso modo de viver, dê glória ao Criador.
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