SOLENIDADE DE PENTECOSTES – ‘Recebei o Espírito Santo’ – Ano B – 23 de Maio
Hoje, na celebração de Pentecostes, fazemos memória do dia em que o mistério pascal atingiu sua plenitude no dom do Espírito Santo, derramado sobre a Igreja nascente. “Para levar à plenitude os mistérios da páscoa, o Senhor derramou, hoje, o Espírito Santo prometido, em favor de seus filhos e filhas” (prefácio da missa do dia). O Espírito do Ressuscitado, prometido pelo Senhor, concedido à comunidade dos discípulos e discípulas, reunida no cenáculo em Jerusalém, renova, transforma, edifica o Corpo de Cristo, fortalece a missão e cria o ser humano novo, pois “todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8,14).
Concluindo a caminhada dos cinquenta dias de Páscoa, agradeçamos ao Pai, porque o Espírito Santo revelou a todos os povos, raças e nações o mistério escondido desde toda a eternidade. Este espírito acende, nos corações, a fé, a esperança e o amor. Ao mesmo tempo em que nos abre para a comunhão com Deus, ele nos conduz ao próximo com sentimentos de encontro, reconciliação, testemunho, desejo de justiça e de paz, renovação da mentalidade, verdadeiro progresso social e impulso missionário (cf. Ad Gents, n. 4; Gaudium et Spes, n. 26).
Para o autor do quarto Evangelho, a ressurreição e a descida do Espírito Santo são parte do mesmo acontecimento. O Espírito Santo é um dom que procede diretamente de Cristo ressuscitado, representa o sopro de vida. João inicia a narrativa revelando o dia e a situação da comunidade: “Ao anoitecer do primeiro dia da semana, estando trancadas as portas do lugar onde se encontravam os discípulos..”, Realça a situação de insegurança própria de quem perde as referências e que não sabe mais a quem recorrer. É a comunidade que ainda não fez a experiência do encontro com o Ressuscitado e nem tem consciência do que significa a ressurreição. É uma comunidade fechada e com medo, desamparada num ambiente hostil. Necessita fazer a experiência do Espírito. Só a partir desta experiência, estará apta para a missão no mundo. Subitamente, “Jesus aparece e se coloca no meio deles”. Todos ficaram contentes por verem o Senhor, de tal forma que recuperaram confiança e a serenidade ao ouvirem a saudação: “A paz esteja convosco!” Nos sinais das mãos e dos pés, que evocam a entrega total, os discípulos reconhecem o Senhor. “Soprou sobre eles e falou: Recebei o Espírito Santo”. Gesto que evoca o “sopro vivificante de Deus na criação do ser humano” (Gn 2,7). Ao soprar sobre eles, o Ressuscitado lhes infunde o hálito da nova vida e faz nascer o ser humano novo. Animada pelo Espírito, a comunidade se transforma em missionária do perdão, que gera relações reconciliadas e reconciliadoras, comunidade de Cristo ressuscitado no mundo, sob a ação Espírito Santo (Evangelho Jo 20,19-23).
A primeira leitura de hoje, tirada do livro dos Atos dos Apóstolos (At 2,1-11), apresenta a Igreja como a comunidade que nasce do Ressuscitado e, assistida pelo Espírito Santo, é chamada a testemunhar aos seres humanos o projeto do Pai. A festa de Pentecostes era uma comemoração judaica, celebrada cinquenta dias após a Páscoa. Era conhecida como uma festa agrícola, na qual se agradecia a Deus pela colheita da cevada e do trigo. Mais tarde se transformou na festa histórica em que se comemorava a aliança, a entrega da Lei no monte Sinai e a constituição do povo de Deus (cf. A. ADAM. O Ano Litúrgico.São Paulo: Ed. Paulinas, 1982. pp. 855).
Ao situar o dom do Espírito nesta festa, o autor dos Atos dos Apóstolos sugere que o Espírito é a Lei da nova Aliança e que, por ele, constitui-se a nova comunidade do povo de Deus. Pentecoste evoca o nascimento da Igreja. O Salmista reconhece que, quando Deus derrama seu Espírito, o universo se renova e exultam de alegria todas as suas criaturas: “Quando tu, Senhor, teu Espírito envias, todo mundo renasce, é grande a alegria!” (Sl 104/103).
O Apóstolo Paulo escreve para a comunidade cristã de Corinto, mergulhada num clima de divisão. Ele alerta seus membros de que os conflitos e as rivalidades perturbam a comunhão e se constituem em contra testemunho. O Apóstolo compara a comunidade a um corpo com muitos membros. Apesar da diversidade de membros e de funções, o corpo é um só. Na comunidade (corpo) formada de muitos membros circula a mesma seiva vital, pois todos foram batizados num só Espírito e bebem num único Espírito (2º Leitura – 1Cor 12,3b-7.12-13 ou à escolha para o Ano B: Gl 5,16-25).
Que a festa de Pentecostes reavive a caminhada evangelizadora da Igreja e o testemunho de fé de cada irmão e irmã. Recebamos o Espírito como força amorosa do Pai e do Filho ressuscitado que reanima os nossos corações e nos confirma na missão, em comunhão com todos os que se empenham na edificação de uma sociedade reconciliada e reconciliadora, em tempo de mudanças.

