FORMAÇÃO

4º Domingo do Tempo Comum – Um Ensinamento Novo, dado com Autoridade! – 31 de Janeiro

Avançando no percurso do Tempo Comum, cada discípulo vai sendo, aos poucos, familiarizando com o reino de Deus e com o papel que deve assumir nele. A Liturgia deste Quarto Domingo do tempo Comum convida cada homem e mulher à profecia verdadeira, que é uma das muitas virtudes daquele que se propõe ao seguimento de Jesus. Nosso mundo sempre precisou da palavra profética a fim de que os corações se voltassem a Deus e, agora não é diferente. Reunindo seu povo ao redor da Palavra e da Eucaristia, o Senhor concede seus dons para que cada um entenda onde e como exercer sua vocação profética, adquirida no Batismo e lapidada ao longo do caminho de discipulado.

 A Primeira Leitura reservada a este Domingo, retirada do livro (Deuteronômio 18,15-20) refere-se a uma etapa muito importante da História de Israel. O capítulo 18 do deuteronômio trata dos direitos dos sacerdotes levíticos (versículos 1-8), das falsas expressões do profetismo (versículos 15-20) e do critério pra distinguir o verdadeiro do falso profeta (versículo 21-22).

Esta passagem figura na seção que o Deuteronômio consagra às instituições e aos ministérios do povo eleito. Depois de ter falado sobre os direitos e deveres do rei e dos sacerdotes, passa ele a falar dos profetas

Este assunto é introduzido por uma prescrição que proíbe Israel de recorrer à adivinhação, como fazem os pagãos (Deuteronômio 18,9-14). O único meio de conhecer a vontade de Deus, será com efeito o recurso ao profeta (versículos 15-20). A adivinhação, a magia, o espiritismo em suas mais variadas formas atestadas em Canaã, são tentativas humanas de entrar em contato com o sobrenatural, conhecê-lo e, se possível, controlá-lo.

Para o Deuteronômio, porém, Deus já fez conhecer a sua vontade, expressa claramente na Aliança do Sinai, da qual Moisés é o intermediário pedido pelo próprio povo (versículo 16). O desejo de o homem saber se será ou não feliz, também já foi respondido: Se observar a Lei da Aliança o homem o homem será abençoado e feliz; se a desobedecer, será amaldiçoado.

Sem dúvida, o autor escreve numa época em que a realeza e o sacerdócio atravessam uma crise grave e os profetas são os únicos a proclamar a vontade de Deus, o retorno às fontes da Lei e a constituição de um “povo novo” em torno da Palavra.

O Salmo 94/95,1-2.6-9 é uma mistura de dois tipos. Do início até a metade é um hino de louvor; a segunda metade é uma denúncia profética.

Este salmo é um ato litúrgico que a Igreja manda recitar todos os dias no começo da Liturgia das Horas como invocação, recorda-nos que dia após dia, no “hoje” continuamente renovado da nossa vida (cf. versículo 8), ressoa a voz do Senhor, nosso “criador”, “pastor” (cf. versículo 7) e “salvador” (cf. versículo 1): vamos à Sua presença com confiança, “Ele é o nosso Deus, e nós somos o seu povo” é a fórmula densa da Aliança.

O povo já vive na terra prometida, tem um Templo, parece ter chegado ao lugar do repouso. E, apesar disso, cada dia deve ouvir o chamado de Deus e cumpri-lo, para conservar o dom da terra, onde participa no repouso de Deus. Do contrário, sua infidelidade na terra prometida será como a infidelidade dos pais no deserto.

A Segunda leitura  (1Coríntios 7,32-35) tem todo o capítulo 7, da Primeira Carta aos Coríntios consagrado aos estados de vida do cristão. Paulo falou sucessivamente dos esposos que vivem juntos (1Coríntios 7,3-5.10) e perguntam o que representa a continência para si; dos esposos que vivem separados por suas crenças (versículos 12-16); dos cristãos que não são casados e, entre eles, das pessoas “virgens”, moços e moças (versículos 36-38) e, finalmente, dos celibatários e das viúvas (versículos 39-40). A segunda leitura é tomada, mais uma vez, das “questões práticas”, da Primeira Carta aos Coríntios.

Projetando a narrativa do Deuteronômio para um tempo futuro, podemos entender esse profeta prometido como sendo Jesus; todavia, entre Moisés e Jesus, passaram-se mais de 1200 anos, durante os quais viveram e atuaram todos os grandes profetas, cujos feitos e palavras são narrados na Bíblia.

E no Evangelho de hoje (Mc 1,21-28), vemos Jesus entrar na sinagoga de Cafarnaum, em dia de sábado, praticar a caridade (dentro da mentalidade do seu povo no século I) e ensinar com a autoridade de quem vive para Deus e segundo Deus, sem fanatismo, sem qualquer tipo de fundamentalismo bíblico, mas de acordo com a lei do amor ao próximo, como nos diz a Oração do Dia de hoje:

“Concedei-nos, Senhor nosso Deus, adorar-vos de todo coração e amar todas as pessoas com verdadeira caridade”.

A celebração se constitui o primeiro lugar para realizar este gesto profético de Jesus ensinando com autoridade. É o que diz o canto: “Antes que te formaste dentro do seio de tua mãe”.

Neste canto, que se baseia em outra passagem do Bíblia (Jeremias 1,1-10 ), que muito bem serve de canto de abertura para a celebração eucarística deste domingo, os pobres e os excluídos são os preferidos de Deus em oposição aos que têm o coração fechado, que sempre arrumam desculpas para não festejar com o grande rei.

O canto mostra o que ficou dito no evangelho a respeito do Profeta Jesus: “O que é isto? Um ensinamento novo, dado com autoridade: ele manda até nos espíritos maus, e eles obedecem”, invertendo aquele modo de pensar tipicamente humano que valoriza o mais rico, famoso, com saúde, ou importante, trazendo para participar do seu banquete os esquecidos, os coxos, os impuros, os doentes, em suma, os pobres. É essa inversão que se verifica no evangelho e que pode começar, a partir do canto, a se verificar na celebração.

Mas para que a mesa da Palavra e da Eucaristia seja realmente dos pobres e dos impuros e para que nela se realize o cumprimento das profecias que inverte a lógica deste mundo, é preciso em primeiro lugar reconhecê-la como nossa.

Somos hoje os convidados que aceitaram, os que sofrem, os que choram e os doentes, pobres e impuros ou desqualificados por qualquer preconceito humano. Somos nós, mas também aqueles que ainda estão nas esquinas, ruas, praças, longe da medicina vitimados pela maldade humana, empobrecidos pelo egoísmo e pecado deste mundo, apedrejados pelos rigores moralistas e impiedosos dos mesmos corações que dizem não à mesa da Eucaristia. 

O canto cumprirá a sua função aos nos recordar de outro modo o evangelho, e será tanto mais litúrgico, se nos lembrar o que esta mesa significa para nós e para os outros e que muitos ainda faltam neste banquete, à espera de um convite, para desfrutar os primeiros frutos do Reino.

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