10º DOMINGO DO TEMPO COMUM – No seguimento de Jesus, fazer a vontade de Deus – Ano B – 06 de Junho de 2021
Neste décimo Domingo do Tempo Comum, o texto evangélico proposto pela liturgia é Mc 3,20-35. Esse texto é bastante significativo para a compreensão do ministério e do mistério de Jesus enquanto messias e responsável por neutralizar as forças do mal com a sua mensagem e práxis libertadoras.
O texto retrata mais um momento da atuação de Jesus na Galileia com as tradicionais características de adesão e contestação à sua atividade messiânica, mostrando que nenhum esquema religioso, social e cultural é capaz de contê-lo ou controlá-lo.
A Primeira Leitura (Gn 3, 9-15) nos remete às contradições existenciais. A presença do pecado, do sofrimento, é o oposto do desejo de harmonia do paraíso. O texto nos fala que é necessário encontrar a raiz do mal a fim de que possamos transformar a realidade, na direção do projeto de Deus para sua Criação. Afirma que Deus é maior, sua graça, sua presença, sua companhia, é maior do que todo mal, e isso faz com que a esperança e as forças para a vida digna para todos sejam renovadas.
Ao desejar transgredir a condição humana e ‘ser como deuses’, o ser humano se afasta desse projeto de amor, e esta é a origem do pecado, é a origem do caminho de arrogância, de negação da novidade da Criação, de fechamento para o sopro do Espírito, para a vida de serviço e comunhão com toda a comunidade humana e ambiental.
Mas, onde está Deus? Ele está conosco, não nos abandona, ao contrário, nos orienta e conduz à conversão de uma vida autocentrada para o projeto amoroso que a todos inclui.
Na carta de Paulo aos Coríntios (2 Cor 4, 13 – 5, 1) a mesma pergunta está presente: como viver a identidade cristã em um mundo que nega o caminho amoroso vivido por Jesus? Como seguir em meio a tantas contradições?
Paulo situa a comunidade em dados de realidade. Sim, haverá tribulações e perseguição. Não há razão para nos surpreendermos, pois é parte do caminho de conversão de toda a humanidade, de toda a Criação.
A presença do Espírito Santo de Deus em nós é a estrutura para que o homem interior vá se renovando a cada dia e nos mantendo firmes e confiantes. Confiando nesse Amor presente, também damos testemunho dele, principalmente nas circunstâncias adversas.
No Evangelho de Marcos (Mc 3, 20-35) Jesus está sempre em movimento, ele caminha por estradas, vilas, aldeias, cidades, anunciando o Reino de Deus e fazendo discípulos. A identidade de Jesus é tornada concreta na missão e no chamado ao seguimento.
“Jesus voltou para casa com os seus discípulos.” Sim, ele volta para casa, mas não volta da mesma forma que saiu, ele volta com uma comunidade de seguidores, com uma nova ‘família’, com uma identidade já configurada na comunidade e na missão. Ele se autocompreende como Messias, mas não é bem assim que sua ‘casa’ o percebe. Diante da multidão que o segue, em busca de esperança para suas angústias e sofrimentos, seus familiares se assustam, não compreendem o que está acontecendo, e chamam de loucura a forma de Jesus agir.
Jesus está diante de sua ‘casa’, de suas ‘origens’, de si mesmo. Ele está diante da própria subjetividade, construída naquele berço da tradição e agora revisitada. Cada confronto, cada conflito, o traz para a centralidade da vocação crística e fortalece a caminhada.
“Os mestres da Lei, que tinham vindo de Jerusalém, diziam que ele estava possuído por Belzebu (…).” Também as autoridades religiosas não compreendiam as atitudes de Jesus.
“Mas quem blasfemar contra o Espírito Santo, nunca será perdoado (…).” O alerta é mais uma vez reorientador das práticas religiosas. É o seguimento de Jesus que nos coloca na dinâmica salvífica e não há outro caminho. Procurar outros caminhos é como blasfemar diante do sopro divino que habita seu ser e o interpela a viver na dignidade de filhas e filhos de Deus. Ver em Jesus algo diabólico, que divide o ser humano, é se distanciar não apenas da identidade de Jesus, mas da própria identidade, pois nossa própria vocação é a realização da identidade cristã em nossa história pessoal e na história da humanidade.
“Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.” O que determina a filiação, a comunhão familiar é o seguimento de Jesus. Não representa aqui uma contestação da presença de seus familiares ou de sua mãe, e sim uma afirmação de que todos se tornam seguidores do projeto de Amor Maior, todos se colocam a caminho do Reino, no mesmo discipulado.
A Luz vem para iluminar as trevas, então, é parte da dinâmica da vida que elas surjam, se apresentem, para que, pouco a pouco, sejam incorporadas e haja apenas a luz definitiva do Amor que a todos abraça e realiza.
A Liturgia de hoje convida a pensar a vida cristã a partir de gestos concretos. Vivemos em uma sociedade enferma e que produz homens e mulheres enfermos. Muitos são aqueles que vivem em ambientes tóxicos e não conseguem encontrar forças em si mesmos para superar as dificuldades.
O projeto de Deus não é o de que sejamos pequenos deuses, mas, sim, de que sejamos homens e mulheres segundo o coração dele. Fazemos a vontade de Deus quando caminhamos uns na direção dos outros e, juntos, decidimos ser benção para que a comunidade cresça forte e sadia, para a glória de Deus.
Concluímos com as palavras do Salmista:
No Senhor ponho a minha esperança, espero em sua palavra.
No Senhor toda graça e redenção!
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