FORMAÇÃOLITURGIA DIÁRIA

4º Domingo da Quaresma (Laetare)– “O PAI ESPERA A VOLTA DO FILHO” – Ano C – 27 de março de 2022

É como povo de Deus reunido que hoje celebramos o mistério de nossa fé revelado na Páscoa de Jesus, nosso Senhor. Ele nos mandou celebrar sempre a sua ação salvadora em favor de toda a humanidade.

A manifestação da misericórdia de Deus em favor dos homens e mulheres ultrapassa a nossa compreensão. Ele está sempre disposto a acolher com amor todo aquele que se coloca no processo de conversão e retorna para a sua casa. Neste tempo favorável tenhamos a coragem em nossas vidas de voltarmos para o convívio fraterno com os irmãos e irmãs manifestando o amor misericordioso do Pai.

O quarto domingo da Quaresma é conhecido como o domingo da alegria (Laetare) porque nesse domingo vislumbramos a Páscoa do Senhor na liturgia da Palavra, que nos faz refletir sobre a conversão e a reconciliação. Hoje, a cor rósea substituiu o roxo lembrando essa alegria da Páscoa do Senhor que se aproxima, cujos sinais estão presentes nesta liturgia.

Na Primeira Leitura (Js 5,9A. 10-12) recordamos a ação maravilhosa de Deus cumprindo as promessas feitas aos antigos Patriarcas: “dar-vos-ei uma terra onde corre leite e mel”. Passados muitos séculos, Deus liberta o seu povo da escravidão do Egito e entrega-lhes a Terra Prometida.

No texto de hoje vemos os israelitas, que depois de uma longa permanência de quarenta anos no deserto, atravessam o rio Jordão e entram na terra da Promessa. Aproximava-se a celebração da Páscoa e, considerando que só os circuncidados a podiam celebrar (cf. Ex 12,44.48), Josué mandou circuncidar todos os que tinham nascido no deserto e todos os estrangeiros,  para que todos fizessem parte do Povo eleito. A circuncisão era um sinal da aliança estabelecida por Deus com Abraão.

Somos convidados, neste tempo de Quaresma, a fazer uma experiência semelhante à dos israelitas: é preciso pôr fim à etapa da escravidão do pecado e passar, decididamente, à vida nova, à vida da liberdade. É preciso renascer e aderir com convicção as propostas de Deus.

O que ainda me impede de celebrar um verdadeiro compromisso com Deus?

Reconciliação é palavra-chave da Segunda Leitura (2Cor 5,17-21): reconciliação entre os coríntios e Paulo; reconciliação entre os coríntios e Deus. Isso nos recorda que para vivermos em paz uns com os outros é preciso viver em Deus e com Ele.

Reconciliemo-nos com Deus por meio de nossa adesão à Cristo!

Paulo fez-se “embaixador” e arauto desta reconciliação e aponta a eficácia reconciliadora da morte de Cristo pela cruz. Por ela, Deus arrancou-nos do domínio do pecado e transformou-nos em homens novos. Apesar das nossas infidelidades, Deus continua a oferecer-nos o seu amor.

Podemos nos perguntar:

Como respondemos a essa oferta divina? Com uma vida de obediência aos seus mandamentos ou com egoísmo e autossuficiência? É “em Cristo” que somos reconciliados com Deus. Jesus crucificado ensinou-nos a obediência filial ao Pai e o amor total aos homens. É desta forma que procuramos viver?

A comunhão com Deus exige a reconciliação com os irmãos. Como vivemos a obrigação da reconciliação com os que nos rodeiam?

Com três parábolas, São Lucas (Lc 15,1,1-3.11-32) dedica o capítulo 15 do seu Evangelho ao ensinamento de Jesus sobre a misericórdia divina. O ponto de partida para a parábola que escutamos é a murmuração dos fariseus e dos escribas que se escandalizavam com as atitudes de Jesus: “este homem acolhe os pecadores e come com eles”. Para os judeus, os pecadores não podiam aproximar-se de Deus. Por isso, concluíam dizendo que Jesus não podia vir de Deus. É neste contexto que Jesus conta a chamada “parábola do filho pródigo”.

A personagem central é o pai. Jesus fala desse pai como alguém que respeita as decisões e a liberdade dos filhos, revelando um amor sem limites. Esse amor manifesta-se na emoção com que abraça o filho mais novo, que volta à casa, depois de uma amarga e dolorosa experiência, que o levou a passar fome e grandes privações.

É um amor que permanece inalterado, apesar da rebeldia e da infidelidade do filho. Este grande amor do pai revela-se na entrega do anel que é símbolo da autoridade (Gn 41,42) e da pertença à família. Entrega-lhe as sandálias, o calçado próprio das pessoas livres. Este Pai é um retrato perfeito do nosso Pai celeste, um Deus paciente, acolhedor e cheio de misericórdia para conosco.

O filho mais novo é um filho rebelde, que exige muito mais do que aquilo a que tinha direito. Ele é a imagem de todos nós, quando nos deixamos conduzir pelo pecado e exprime o itinerário do pecador, que, pela penitência, regressa à comunhão com Deus. Por outro lado, o filho mais velho sempre fez o que o pai mandou, “sem nunca transgredir uma ordem sua”; nunca pensou em deixar esse espaço cômodo e acolhedor, que é a casa paterna.

Contudo, não aceita que o pai acolha o filho rebelde. Não entende a lógica do pai, que faz uma festa para receber “esse irmão”, que gastou tudo. Este filho mais velho é a imagem dos fariseus e escribas que interpelaram Jesus. “Consideravam-se justos, mas desprezavam os demais”.

Esta “parábola do pai misericordioso” apresenta Deus como um Pai bondoso, que respeita as nossas decisões, mesmo quando usamos mal a liberdade, procurando a felicidade em caminhos errados. Quando nos reencontra, os seus braços estão abertos para nos acolher. Somos convidados a imitar a misericórdia divina e nos orientar por este preceito: ser misericordiosos à semelhança de Deus, nosso Pai.

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